Quando o amor precisa de tradução
- Fe Matos
- 17 de fev.
- 3 min de leitura
A chamada começou pontualmente.
Marina apareceu primeiro na tela, sentada à mesa da cozinha, luz natural entrando pela janela, uma xícara de café esquecida ao lado do computador. Estava em casa. Falava baixo, como quem tenta não ocupar espaço demais.
Alguns segundos depois, Julien entrou na chamada direto do trabalho. Fundo neutro, fones no ouvido, postura ereta demais para uma sessão terapêutica. Pediu desculpas pelo ambiente, explicou que teria apenas aquele horário.
Ambos morando na França, vivendo sob o mesmo teto, dividindo rotinas, ainda assim, pareciam estar em países diferentes; com certeza, estavam em estados psicocorporais internos muito distintos. Ela, brasileira. Ele, francês. Quatro anos de relacionamento, dois de casamento, quando mudaram do Brasil e, uma sensação persistente compartilhada, ainda que não nomeada: algo importante está sendo perdido na tradução diária do conviver.
“Eu me sinto sozinha aqui”, disse Marina.
Julien respirou fundo antes de responder: “Eu estou aqui todos os dias.”
Ela falava de solidão emocional. Ele respondia com presença física. O desencontro começava aí.
Marina sentia falta de palavras, de gestos explícitos, de declarações que no início vinham com facilidade. Para ela, amor era conversado, tocado, reafirmado. Julien demonstrava de outro modo: cuidava das contas, organizava a rotina, fazia compras, consertava coisas quebradas. Para ele, isso era afeto em ação.
Mas nada disso chegava ao corpo dela como amor...
Na intimidade, o abismo aumentava. Marina falava do desejo de se sentir desejada. Julien escutava cobrança. O erotismo que antes os unira agora se perdia em traduções imperfeitas: ela queria encontro, ele sentia pressão. Ela buscava calor, ele retraía. O corpo dele entrava em congelamento; o dela, em luta.
Na alimentação, outro campo minado. Marina sentia falta do tempero, da comida como afeto, da mesa cheia. Julien valorizava refeições simples, silenciosas, funcionais. Ela interpretava como frieza. Ele, como normalidade.
No âmbito familiar, mais conflitos. A família dela aparecia em mensagens constantes, áudios longos, perguntas diárias. A dele, mais silenciosa, distante, respeitosa. Marina sentia-se pouco acolhida pelos sogros; Julien, invadido pelos limites porosos da família brasileira. Nenhum dos dois estavam errados, apenas, habitando culturas emocionais diferentes.
Quando Marina dizia: “Você não sente saudade de mim”, Julien ouvia: “Você é incapaz de amar”. Quando Julien dizia: “Eu preciso de espaço”, Marina escutava: “Você me rejeita”.
Ditos que viravam acusações. Não ditos que viravam feridas.

Introduzi a ideia de que, além de um casal, eles eram também um encontro intercultural de sistemas nervosos. O corpo de Marina buscava corregulação pelo contato, pela fala, pelo olhar prolongado. O de Julien regulava-se pelo silêncio, pela previsibilidade, pela contenção emocional.
Mostrei que não se tratava de quem amava mais, mas de como cada um havia aprendido a amar.
Propus pequenos experimentos: Julien tentar nomear um afeto por dia, mesmo que soasse estranho na língua. Marina observar os gestos silenciosos como possíveis declarações. Um ritual semanal onde cada um falaria na sua língua materna, enquanto o outro apenas escutaria, sem corrigir, sem responder, apenas sentindo o ritmo do outro.
Na sessão seguinte, algo havia mudado.
“Quando ele me trouxe um chocolate do mercado e disse ‘pensei em você’, eu quase chorei”, contou Marina. Julien sorriu, meio sem jeito: “E quando ela ficou em silêncio comigo, sem exigir palavras, eu consegui ficar.”
Ao longo das sessões foram sugeridos outros exercícios. Alguns eles tiveram êxito, outros não, ora porque não tiveram identidade, ora porque realmente sentiram dificuldades individuais (questões do passado a serem resolvidas na individualidade).
Após cinco meses e meio de psicoterapia de casal, o desejo, entre Marina e Julien, começou a reaparecer não como obrigação, mas como consequência da segurança. O corpo dela relaxou. O dele saiu do congelamento. O Eros voltou a circular, discreto, mas vivo.
Nem todo casal binacional sofre. Mas todo casal intercultural precisa aprender a traduzir afeto, não apenas palavras, idiomas. Eles não estavam em crise por falta de amor. Estavam cansados de tentar amar, falando apenas da perspectiva da própria cultura.
Marina e Julien descobriram que amar alguém de outra cultura exige mais do que boa vontade: exige curiosidade, humildade e disposição para sentir o mundo a partir de outros olhos.
O casal seguiu em terapia por mais um ano, ajustando outras diferenças culturais: relações com sogros, formas de sociabilidade, diversão e descanso, questões financeiras, e planejamento familiar - filhos.
E você? O que no seu relacionamento está sendo dito… e o que permanece não dito, esperando tradução? Comenta aqui, eu vou adorar te ler e farei questão em te responder.
Se sentir que esse texto tocou algo aí dentro, talvez valha explorar também as categorias O Corpo Fala e Dicionários das Emoções e Sensações aqui no blog. E se ainda, perceber que outras pessoas irão se beneficiar com essa leitura, compartilha.
Cuide-se bem,
Fe






Comentários