“Eu não sei mais o que fazer.”
- Fe Matos
- 20 de jan.
- 4 min de leitura
Quando você diz “eu não sei mais o que fazer”, de onde essa frase está vindo no seu corpo?Ela pode nascer do colapso silencioso, da urgência explosiva ou de um pedido legítimo de ajuda.
A frase é a mesma, mas o estado do sistema nervoso muda tudo. Muda o tom, muda o impacto, muda o que o outro escuta. E, muitas vezes, muda o destino da relação.
Na prática clínica, vejo diariamente que a mesma frase pode aproximar ou afastar, gerar cuidado ou defesa, convite ou ruptura.
O corpo fala antes das palavras. Sempre.
Estado Dorsal Vagal (colapso/congelamento)
📢 Quem fala no dorsal:
A frase sai baixa, sem energia, às vezes quase sem voz. A prosódia é achatada, o olhar perde foco, o corpo parece pesado ou ausente. Não há pedido de ajuda, há desistência. O sistema nervoso está em modo de sobrevivência por desligamento. Não é drama. É exaustão neurofisiológica.
Por dentro, o corpo já tentou tudo o que conseguiu. Quando nada funcionou, ele puxou o freio de emergência.
🎧 Quem escuta no dorsal:
Quem escuta pode sentir confusão, impotência ou um leve afastamento. O corpo de quem ouve pode desligar também, ficar sem resposta, ou sentir um peso difícil de sustentar.
A frase soa como um beco sem saída.
Dois corpos colapsados não conseguem pensar juntos.
Eles coexistem em silêncio, mas sem troca real.
É aí que muitos vínculos começam a se desfazer,
não por falta de amor, mas por falta de energia vital.
Estado Simpático (luta/fuga)
📢 Quem fala no simpático:
Aqui a frase vem carregada de intensidade.
O tom é elevado, o olhar fixo ou duro, o corpo inclinado para frente. O sistema nervoso está ativado, tentando resolver, pressionar, reagir.
O “eu não sei mais o que fazer” vira um grito interno de urgência, impotência, frustração e autocobrança, o que resulta na dificuldade de propor soluções.
🎧Quem escuta no simpático:
Quem escuta tende a reagir com defesa, contra-ataque ou fuga. O corpo interpreta a frase como ameaça. A mente, como cobrança ou acusação.
Mesmo sem intenção, a frase é escutada como confronto, e diante de guerras, não existe criatividade, o pensamento gira em torno da sobrevivência: ou ataque ou esquiva.
Dois simpáticos juntos criam um campo de batalha:
não há diálogo, mas competições, provocações, ironias, mentiras...
Estado Ventral Vagal (conexão e segurança)
📢Quem fala no ventral:
O tom é firme e calmo. Há pausa, contato visual, respiração disponível.
A frase não vem do desespero, mas da honestidade emocional.
É um pedido legítimo de ajuda, não uma desistência nem uma ameaça.
Abre-se caminho para a conversa honesta, o reconhecimento das incapacidades ou inabilidades ou erros.
🎧Quem escuta no ventral:
Quem escuta sente abertura no corpo e numa atitude de cumplicidade, percebe a fragilidade e a sinceridade do outro. Sente curiosidade, empatia, vontade de se aproximar, e buscar soluções.
A frase é recebida como convite à parceria, não como peso.
É nesse estado que relações amadurecem.
Dores são acolhidas e podem ser reparadas. Conflitos viram diálogo.
Não porque tudo está bem, mas porque há segurança suficiente
para atravessar o que não está bem.
A frase é a mesma, mas o corpo dá o tom da história.
Aprender a escutar o estado do sistema nervoso por trás das palavras muda radicalmente a forma como nos relacionamos.
Na clínica, acompanhei um casal em que essa frase aparecia sempre antes de grandes brigas. Quando aprenderam a reconhecer de onde ela vinha no corpo, a dinâmica mudou: o conflito deixou de ser interpretado como pessoal e passou a ser gerenciado em suas partes: o que é de um é de um, o que é do outro, do outro e, o que é do casal, do casal.
A Teoria Polivagal nos nos ensina algo essencial:
comunicação saudável depende de segurança relacional.
Não é somente sobre escolher melhor as palavras,
mas sobre regular o corpo antes de falar e antes de escutar.
💡 Duas dicas práticas para sair do simpático ou dorsal e voltar ao ventral:
Acrescente uma ancoragem temporal
(especialmente eficaz para sair do simpático)
Transforme a frase antes no tempoe diga:
"Neste momento, eu não sei mais o que fazer.”
Essa pequena mudança tira a frase do absoluto, reduz a ameaça implícita e sinaliza segurança ao sistema nervoso. O corpo entende que é um estado passageiro, não uma catástrofe definitiva. Só depois disso leve a frase ao outro. A comunicação mudará de tom sem que você precise se censurar.
Dê um endereço corporal à frase
(especialmente eficaz para sair do dorsal)
Localize fisicamente onde o significado dessa frase mora no corpo antes de dizê-la:
“Quando eu digo ‘eu não sei mais o que fazer’, isso pesa aqui…”(mão no peito, no estômago, na garganta)
Esse gesto simples devolve presença e contorno à experiência. O sistema nervoso sai do desligamento difuso e começa a se reorganizar. A frase deixa de ser um colapso global e vira uma experiência localizada e, tudo que pode ser localizado, pode ser cuidado.
Minha sugestão final de sempre: Observe-se e observe o outro, usando a sensopercepção antes da mente julgadora. Mentes mentem, corpos denunciam.
Quer aumentar seu repertório corporal, assista os outros vídeos da série O corpo Fala, e ainda aprenda mais sobre emoções e sensações na categoria dos Dicionários. E se puder, curte aqui, comenta e compartilha.
Cuide-se bem, Fe













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