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Confiança

Quando aprendemos a Com-Fiar juntos


Confiar é descansar o peso do corpo, onde não se vê o alicerce, e, ainda assim, sentir-se ancorado.

 

A confiança é uma emoção emudecida. Ela raramente grita, não faz alarde, não se impõe. Ela se revela quando o corpo solta o ar sem perceber num suspiro vagaroso, quando os ombros descem alguns milímetros, quando o olhar não precisa vigiar.


Na sensopercepção, confiança é aquele agradável quentinho no peito, respiração que encontra ritmo, mandíbula relaxada, um eixo interno que estutura cada escolha e atitude. A confiança não se revela no discurso, mas na musculatura, na respiração, na não necessidade de vigilância.


Quando bem detectada, a confiança cria fluidez: a fala se alinha ao sentir, o vínculo se torna habitável, o tempo deixa de ser ameaça, o amor tem espaço para crescer. A função saudável da confiança é permitir a co-regulação: eu me acalmo porque em mim, pode existir o eu e o outro de forma leve, real, espontânea e plena, com virtudes e desvirtudes. E, como dentro existe um lugar seguro, não é preciso buscar ou cobrar essa segurança exclusivamente no outro. Claro que o outro que informa ser confiável soma aos valores internos.


Quando ignorada, o corpo entra em estado de alerta crônico: insônia, hipervigilância, controle excessivo, necessidade de provas constantes, dificuldade de entrega, exaustão relacional, ciúme, isolamento emocional, dependência afetiva ou, no extremo oposto, desligamento súbito. Tudo piora quando a confiança se torna disfuncional, quando vira fusão cega e dependentemente simbiótica, quando é substituída por desconfiança defensiva permanente. A ausência de confiança não é neutra: ela cobra preços somáticos e relacionais, e eles são caros.


Com confiança, o vínculo respira;

sem ela, o corpo se arma.


A palavra confiança vem do latim confidere: com (junto) + fidere (ter fé). Confiar é, etimologicamente, ter fé COM alguém. Não se trata de ingenuidade nem de cegueira, mas de uma disposição interna de se apoiar em si, no outro, no caminhar, na vida, juntos. Em sua camada simbólica, confiança é ponte. Não elimina o abismo, mas permite atravessá-lo. É também semente: algo que se planta sem garantia absoluta, apostando no tempo, no cuidado e na repetição de experiências suficientemente boas.


Na traumaterapia, especialmente na Experiência Somática, no EMDR e na Teoria Polivagal, sabemos que confiança é um estado neurofisiológico, o tão por mim falado em outros textos aqui do blog, o ventral vagal: ela só emerge quando o sistema nervoso reconhece segurança suficiente. Sem isso, não há discurso que convença o corpo.


Na tanatologia, confiança está intrinsecamente ligada à impermanência: confiar é amar sem a ilusão do "para sempre". Toda relação nasce interpelada pela finitude, seja pela morte de corpo morrido, ou pelas mortes simbólicas como nas separações. Confiar, nesse campo, não é exigir garantias do outro ou da vida, mas sustentar a presença apesar da transitoriedade. No luto, essa experiência se aprofunda: a confiança deixa de repousar na continuidade concreta e passa a habitar a memória, o sentido e a transformação do vínculo.


Amar sabendo que tudo é finito não empobrece o amor;

ao contrário, devolve-lhe densidade, verdade e escolha cotidiana.


Na psicologia junguiana, confiança dialoga com arquétipos como o do Fiel Companheiro e sua sombra, o Traidor interno, que projeta no outro antigas quebras de pacto. Quando essa sombra não é reconhecida, o vínculo atual passa a carregar culpas que não lhe pertencem, e o presente é lido com lentes do passado. A confiança amadurece quando o sujeito assume a própria história de rupturas, retirando do outro a função de reparação impossível. Integrar essa polaridade é permitir que o encontro seja real, e não uma cena arquetípica repetida.


Do ponto de vista sistêmico, a confiança é perpassada por lealdades invisíveis, co-dependências adoecidas e experiências transgeracionais. Há famílias onde confiar foi perigoso; em outras, foi exigência moral. Por isso, a relevância de conhecer as histórias de seus antepassados, utilizando por exemplo o jogo psicofotográfico "Sociedades Sintônicas", que trabalha com mandalas e imagens para sentir as relações familiares.


Nem toda desconfiança é falha de caráter;

muitas vezes, é memória não integrada.


Sob a lente intercultural, a confiança se constrói na adaptação mútua, na aprendizagem de novas linguagens de afeto e previsibilidade. Aqui, confiar ganha nuances delicadas. Em algumas culturas, confiar é demonstrar autonomia; em outras, é demonstrar lealdade. Há culturas que expressam confiança pelo silêncio e outras pela verbalização constante. Em relações interculturais, esses códigos se desencontram: um interpreta reserva como distância; o outro interpreta intensidade como invasão. O que para um é cuidado, para o outro pode soar como controle. Sem tradução emocional, a confiança se perde não por má intenção, mas por ruído cultural.


Na minha escuta clínica, confiança aparece menos como conceito e mais como sintoma. Casais dizem que “o problema é a confiança”, quando, na verdade, o que está em jogo é a sensação interna de segurança no vínculo. Em contextos de migração, casais binacionais, luto, exílio ou trauma, a confiança costuma ser uma das primeiras camadas a se fissurar. Mudar de país, de língua, de referências culturais ou perder alguém significativo desorganiza o mapa interno do que é previsível. O corpo passa a perguntar, em silêncio: estou seguro aqui? posso baixar a guarda? 


No consultório, a confiança costuma aparecer disfarçada em frases que são como tentativas legítimas do psiquismo de se proteger quando a experiência anterior ensinou que confiar doeu, tais como:


“Eu preciso ter certeza.”

“Eu não consigo relaxar.”

"Eu sempre espero o pior.”

“Se eu baixar a guarda, algo ruim acontece.”

“Eu confio, mas fico atento.”

“Prefiro fazer tudo sozinho”.


Imagina, agora, uma cena: uma mulher atravessando uma ponte suspensa, daquelas que são bem estruturadas, sem vãos. O parceiro caminha alguns passos à frente, confiante. Ela segura o corrimão com força excessiva. O vento balança levemente a estrutura. Nada cai, nada rompe, mas o corpo dela não sabe disso. Para o parceiro, a ponte é apenas um caminho. Para ela, é memória, perda, risco, mudanças, sentimento de não pertencimento. A confiança não está na ponte, está no sistema nervoso dessa moça, ainda aprendendo que atravessar não é sinônimo de cair.


Confiar não é esquecer o passado,

mas não permitir que ele dite sozinho o futuro.

É um ato silencioso de coragem regulada.


Não se força confiança; cria-se contexto para que ela possa emergir. Aprender a confiar é um processo e exige coragem e delicadeza. Por isso, aproveito esse espaço para deixar algumas dicas de reflexões e práticas:


1.    Reflexões:

  • Onde meu corpo relaxa e onde se contrai quando penso nas minhas relações mais próximas?

  • O que, na minha história, aprendi que confiar era perigoso ou arriscado demais?

  • Estou pedindo confiança ao outro onde ainda não consegui com-fiar em mim ou na vida?


 2.  Práticas:

  • Mapa corporal da confiança:

    Em silêncio, pense em alguém ou em uma situação em que você confia. Observe: onde o corpo aquece, amolece ou se expande? Depois, pense em uma situação de desconfiança e note as diferenças. Esse contraste educa o sistema nervoso.

  • Ritual de previsibilidade relacional:

    Escolha um pequeno gesto repetido no vínculo (uma mensagem, um horário, um cuidado). A confiança se constrói mais por constância do que por intensidade.

  • Escrita de com-fiança:

    Escreva sobre uma experiência em que confiar foi possível, mesmo que breve. Não romantize: descreva o que o seu corpo sentiu. A memória somática positiva é um antídoto para a hipervigilância.

 

Que a confiança não seja exigência nem promessa vazia,

mas um chão que se constrói passo a passo,

até que o corpo reconheça: aqui, posso pousar.

 

 

E você? Em que parte da sua vida a confiança tem desejado existir? Compartilhe nos comentários, talvez suas experiências inspirem a de alguém.

Lembre-se de folhear o blog, há tantos outros textos, inclusive com outras temáticas.

E se achar que essas palavras podem ajudar alguém, distrubua-as.

 

Cuide-se bem,

Fe

 

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