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O País das Neves - Yasunari Kawabata


Outra decisão tomada para este 2026: ler livros de autores de culturas bem distintas, afinal, trabalhando com a interculturalidade, seja na psicologia seja na arte, ler histórias de outros países me permite conhecer outros modos de comportamento humano, de fazer arte, outros objetos, outros rituais, outras palavras, etc... e também, os escritores clássicos que moldaram o imaginário de seus povos.


Direto do Japão, encontrei Yasunari Kawabata. Nascido em 1899, em Osaka, e falecido em 1972 (ano que eu nasci), Kawabata foi um dos maiores nomes da literatura japonesa do século XX e o primeiro escritor japonês a receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1968. Sua obra é marcada por uma escrita delicada, contemplativa e profundamente sensorial (o que eu adorei), atravessada pela estética japonesa do silêncio, da impermanência e da beleza contida nas pequenas coisas. Kawabata morreu em 1972, em circunstâncias associadas ao suicídio - um fim que muitos relacionam à melancolia e à sensibilidade extrema, nítidas em sua literatura.


O País das Neves (Yukiguni), curiosamente, não foi escrito de uma vez só. Kawabata começou a publicá-lo em 1935, em formato serializado em revistas literárias japonesas, como era muito comum na época no Japão. Ele continuou escrevendo e revisando a história ao longo de vários anos. A versão considerada definitiva do romance só foi concluída e publicada em livro em 1947. Ou seja, a obra foi sendo construída lentamente, em fragmentos, amadurecendo junto com o próprio autor, algo que combina muito com o estilo observador e remansado que senti ao ler.


O País das Neves narra encontros e desencontros entre Shimamura, um homem da cidade, e Komako, uma gueixa que vive em uma região montanhosa e isolada do Japão. Entre paisagens cobertas de neve e diálogos sutis, o romance se constrói não apenas naquilo que é dito, mas sobretudo no que permanece suspenso, nas entrelinhas, nos gestos, nos olhares. A história se move lenta, silenciosa, profunda. Um amor delicado, impossível em certos aspectos, mas vivo em sua intensidade emocional e sensorial.


"Kotatsu, obi, shosagoto, shoji, cães guardiães, hakama, shamisen, chan, nagauta, Kanjincho, kabuki, Miyakodori, Urashami taro, Dodoitsu, Bagui, Manju, Hashi, Susuki, Kaya, Festa da expulsão dos Pássaros, Shimenawa, Neesan, Kanzashi, Hatte, Kuma-zasa, Genroku, akebi, Chiyogami, Tsuzumi, Chijimi, Gangui, Tanashita, Udon, Takemawari, Domawari."


Algo que foi curioso ao ler esse livro, apesar das notas de rodapé descrevendo as palavras japonesas representativas de objetos, vestimentas, alimentos típicos, entre outros, foi a minha atitude de pesquisar em imagens e vídeos, as palavras japonesas. Queria ver, quase tocar, aquilo que Kawabata descrevia. Entre todas as descobertas, a que mais me impressionou foi o chijimi, um tecido tradicional japonês, tipo linho. Ver como ele é produzido, o cuidado manual, a delicadeza do processo, o tempo não imediato, consagrou em mim a sensação central que o livro me despertou: desaceleramento. Aliás, te sugiro ver também: https://youtu.be/4KXbotKCG_M?si=ibgEqwbHrHIMtHOH


"Um chijimi pode durar mais que cinquenta anos sem ao menos desbotar; em compensação, as relações humanas nao têm longevidade alguma se comparadas ao chijimi." (p.136)


kawabata provoca, diversas vezes, um respiro da história principal, o romance, com descrições detalhadas das paisagens.... E são justamente esses detalhes que fazem os olhos pararem sobre toda uma geografia que não tive a oportunidade de conhecer, não ainda. Como é bom desacelerar, não acha?


Apreciar os detalhes das coisas ao redor, das pessoas ao redor, amplia o meu sensorial. Tenho me percebido usando mais a visão e a audição, principalmente. E sabe o que me peguei fazendo? Parando no meio do dia e sentindo, nas pontas dos dedos, a maciez do pelo das minhas gatinhas. Pequenos rituais de presença. Pequenas ancoragens na vida sensorial, onde habita aquilo que de fato me sustenta no dia a dia. Observar a luz entrando pela janela. Escutar com mais atenção. A vida emocional e sensorial se expande quando a gente permite esse tempo. Talvez seja isso que Kawabata sussurre ao leitor: desacelerar também é viver.


Preciso dizer que o romance me lembrou imediatamente da minha única referência sobre esse modelo de relacionamento, o filme: Memórias de uma Gueixa. A cultura das gueixas envolve arte, sedução, mistério, magia, desejo, jogos de poder, educação e refinamento, mas também, aprisionamento. Porque Gueixas tem histórias de origens desafiantes e limitadas e, na maioria das vezes, permanecem impotentes diante de suas escolhas de autonomia e liberdade feminina. Ainda assim, nada impede que amem, que desejem ser amadas, que sonhem com uma vida que lhes foi proibida: a vida de esposa tradicional, com filhos, família.


O que pensar sobre isso? Gueixas são mulheres usadas para satisfazer os desejos dos homens? O autor incentiva o machismo, o patriarcalismo? Gueixas são as "mulheres de vida fácil"? Vida fácil? São "sugar dads"? São artistas, diplomatas, manipuladoras das políticas e dos poderes? São objetos de desejo carnal apenas? Tantas perguntas que me levam à vontade, de um dia, quem sabe, conhecer uma gueixa e perguntar, ou quem sabe atender em psicoterapia... Com certeza, têm uma vida com muitas emoções e sentimentos reprimidos, que dirá traumas e dores.


Assim como o filme, o livro me trouxe cenas cheias de vida, de cores, de novidades, de romance e de torcidas: torci até o final pelo amor. É que o amor tem de vários tipos, você não acha? Relacionamentos também. E aqui, inevitavelmente, pensei em relacionamentos por um fio. Nos ditos e não ditos que sustentam ou fragilizam os encontros humanos. Naquilo que se sente, mas não se nomeia. Naquilo que se deseja, mas não se pode viver plenamente.


Para mim, Kawabata escreve como quem pinta: em camadas leves, em gestos mínimos, deixando que o sensível se revele sem pressa. Sua escrita é uma experiência em si e não grita, ela sussurra. E, justamente por isso, nos obriga a escutar. Kawabata cria um estado de percepção e me convida a habitar o instante com mais presença e calma.


Talvez, seja esse o grande presente de O País das Neves: a possibilidade de voltar ao sensorial, ao contemplativo, ao que existe entre uma fala e outra. Entre um encontro e outro. Entre o que se vive e o que se sonha. Porque, no fim, todo mundo segue tentando entender onde habita o amor. Onde habita o desejo. Onde habita aquilo que não se concretiza, mas ainda assim nos transforma.


Compartilho com você, algumas perguntas que me pulsam no pós leitura de O País das Neves :

  • em um mundo acelerado, barulhento e saturado de estímulos, onde habita a sua capacidade de se admirar?

  • em qual paisagem da sua própria vida você tem permitido desacelerar?

  • Onde reside a sua vida emocional e sensorial?

  • O que você tem tocado com pressa… que talvez merecesse ser tocado com em câmera lenta?

  • Como você pensa o papel das Gueixas num mundo que discute o não patriarcalismo?

  • Uma Gueixa pode mudar de vida? Se ela pode, apesar de tudo, porque você não poderia?


E se eu sugerisse você fotografar diariamente, uma cena em que você respira lentamente?... semelhante ao que lhe deixo aqui no Por um Fio, nos meus Diários Visuais? Aliás você já os conheceu? então deixo o convite, vai lá respirar nas imagens em que eu parei o tempo.


Cuide-se bem,

Fe.


2 comentários

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Karla Roberta
Karla Roberta
10 de fev.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

A cultura japonesa, a leitura, os romances, os animes, até mesmos os dramas tem tem um sutil e prazeroso convite ao estado de presença, a ver, observar e sentir a vida diante da gente. Uma cultura que encanta inclusive bela dualidade. Beijo carinhoso, obrigada por essa pausa em um texto cheio de presença e delicadeza nas palavras, um presente em uma manhã chuvosa

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Fe Matos
Fe Matos
10 de fev.
Respondendo a

Ah que delicia seu comentário e que bom poder ser esse texto uma pausa agradável para você. Obrigada. Venha sempre!

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