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Os Nomes - Florence Knapp

Em 2026, resolvi inovar nas minhas leituras. Entrei para um grupo de leitores de obras inéditas no Brasil, aquelas que a TAG Inéditos nos envia mês a mês, quase como quem recebe uma carta do mundo. Pela ordem natural das coisas, janeiro começou com Os Nomes, de Florence Knapp.


Foi muito interessante ler esse livro exatamente no momento de vida em que me encontro. Tenho refletido bastante sobre minhas relações familiares, sobre afinidades, sobre nomes e sobrenomes, o que resiste ao tempo e o que, com o tempo, é resgatado. Tenho pensado sobre aquilo que permanece quando tudo muda e sobre a crença íntima de que, quando há amor, o amor precisa vencer no final. Foi desse lugar interno que comecei a leitura.


Os Nomes conta a história de um menino cuja vida se desdobra em possibilidades paralelas, a partir de uma escolha aparentemente simples: o nome que lhe é dado. A cada septênio, acompanha-se três versões de uma mesma existência, com nomes diferentes, destinos diferentes e, ainda assim, atravessadas por fios comuns. Florence Knapp constrói uma narrativa sensível, contemporânea e engenhosa, explorando como pequenas decisões iniciais podem reverberar ao longo da vida inteira.


Florence, a autora que estreia no romance com essa obra, opta por uma escrita econômica e precisa. Não há excesso de explicações e nem descrições detalhadas dos horrores. Ela não expõe tudo. Ela para no ponto exato. Há pausas. Silêncios. Espaços que convidam o leitor a participar ativamente da história. E talvez por isso, o livro seja tão envolvente: ele não entrega tudo. A minha impressão é que em cenas que seriam chocantes, a autora introduz a ideia e a minha imaginação continua a cena, criando cores, formas, diálogos, com todos os meus repertórios de pessoa da arte, admiradora dos filmes e livros e também como psicóloga, escutadora de mil e uma histórias reais e cruéis do ser humano.


Minha primeira emoção durante a leitura foi a curiosidade. Eu queria saber, quase como em um jogo, qual das três vidas, qual dos nomes, eu gostaria mais que tivesse seguido adiante. E, para minha surpresa, eu não consegui eleger. Em todas as versões, alguém muito importante da família morre e isso me deixava realmente triste. A perda permeia as três narrativas. A perda é inevitável seja na vida real ou num romance. Ainda assim, o que posso dizer que a terceira vida - aquela em que o menino carrega o nome da família paterna - foi a que mais me causou repulsa. Não por acaso. Ali, algo da posse, do controle e da violência doméstica se intensifica.


Quem dá o nome tem poder sobre o outro? Claro que não. Mas quem dá o nome inspira, influencia... A psicologia mostrou, em muitos estudos, que o nome carrega narrativas, expectativas, fantasias sobre personalidade, trajetórias e até destino. Biblicamente, há um trecho que sempre me marcou: Deus não precisa saber sobrenome algum. Basta o nome. O nome conectado ao self, ao eu essencial.


O livro me fez pensar profundamente sobre nomes. Sobre o meu nome: Fernanda. Meus pais contam que, quando nasci, escreveram cinco nomes em pequenos papeizinhos. Um deles era Fernanda. Outro, Flávia. Um terceiro era Tânia, o nome da minha mãe. Os outros se perderam na minha memória, que sofrendo edição própria, fixou-se entre Mônica, Andréia e Bruna. O nome sorteado foi Flávia. Mas meu pai gostava mais de Fernanda. E assim fui registrada.


Fernanda vem do alemão e significa ousadia. Curiosamente, sempre associei as Fernandas a algo mais introspectivo, mais sério, quase sisudo. E me reconheço nisso. E dentro de mim existe também uma alegria mais expansiva, mais solar, que vi nas Flávias que cruzaram o meu caminho. Isso me faz pensar se, talvez, carreguemos, mesmo sem saber, os nomes que não nos foram dados, mas quase.


Aproveito para contar um causo que adoro: Certa vez, em um grupo de formação junguiana, havia uma freira que insistia em me chamar de Flávia. Nunca contei a minha história a ela. Mas sempre me perguntei se, de algum modo, ela captava aquele instante inicial, aquele momento em que os papeizinhos foram trocados entre meu pai e minha mãe.


Esse livro também me levou a revisitar a escolha do nome do meu filho, Felipe. Escolhi porque começava com F, como Fernanda. Mas, principalmente, pelo significado: “aquele que ama os cavalos”. Eu sempre amei cavalos. E meu filho também. Durante toda a infância e adolescência, os cavalos foram presença viva em sua história. Isso me fez perceber algo importante: a potência do nome não está no controle de quem o dá, mas no encontro entre o significado, a intenção amorosa de quem nomeia e o self profundo de quem carrega esse nome. Se ele em sua vida futura nunca mais quiser conviver com cavalos, a vida é dele para além do que diz o dicionário dos nomes.


Julian, Bear, Gordon, Fernanda, Flávia, Felipe, Maria, José. Todos nós podemos nos inspirar no significado do nosso nome e na história de quem o escolheu. Mas a trajetória se constrói no cotidiano. Gordon Filho não é Gordon Pai, apesar do desejo do pai. Se existe uma genética de nome, assim como existe a genética biológica ou emocional, hoje a psicologia e a epigenética confirmarm a influência, mas não a determinação fatal e imutável. Ainda bem. Existe psicoterapia para revisitar o que parecia destino, o que parecia aprendido, o que parecia inalterável, e transformar aquilo que não é funcional, que dói, que aprisiona, encontrando escolhas libertadoras. Pode-se trocar nomes, pode-se usar apelidos, pode-se em fases diferentes da vida, usar nomes ou sobrenomes conforme a necessidade da vida profissional:


Quem comanda, no fim, é quem se apossa do próprio nome,

do próprio eu, do próprio self.


Outra característica que percebi foi que Florence trabalha muito bem os entrelaçamentos entre personagens e histórias. Em alguns momentos, tive a impresão de que, mesmo mudando o nome, certas dinâmicas persistem. Porque, às vezes, a vida é como ela é. Mesmo que o contexto maior mude, algumas experiências se repetem. O nome muda, a casa muda, a cidade muda, mas algo do enredo insiste. Acredito que seja porque nem tudo é determinado pelo nome. Nem tudo se cristaliza na escolha inicial. Tudo flui, ou deveria.


E é justamente aí que mora a força desse livro. Apesar da estratégia literária deliciosa, estimulante e até, em certos momentos, divertida, o tema central da obra perpassa por algo muito sério: a violência doméstica. Uma violência que começa sutil, quase imperceptível. Um cuidado exagerado. Uma gentileza que vira controle. Um amor que, pouco a pouco, se transforma em manipulação, obsessão, patologia.


Florence nos mostra como relações alimentadas pelo egocentrismo ou pelo adoecimento do narcisismo são capazes de contaminar todo um sistema familiar. Embora historicamente essa dinâmica tenha sido mais frequente nos homens, dentro de uma estrutura patriarcal, hoje sabe-se que não se trata de uma questão de gênero. O narcisismo também se manifesta em mulheres. Seja como for, esse adoecimento não intoxica apenas o casal: a ferida se espalha. Atinge os filhos, comove as famílias, ecoa na comunidade mais íntima e, em alguma medida, reverbera na própria humanidade.


Talvez por isso, seja tão urgente que aprendamos, enquanto sociedade, a rotular menos e observar mais. Nem toda violência deixa marcas visíveis no corpo. Há relações sem agressão física que são intensamente violentas e guardam marcas no sistema nervoso corporal. Manipulações sutis, quase invisíveis, que corroem a autoestima, fragilizam a identidade e minam a autonomia aos poucos, como quem vai consumindo as vidas sem fazer barulho.


Quando alguém ocupa o lugar de quem domina, muitas vezes não percebe. O poder pode ser cego. Pode ser ensurdecedor. Ainda assim, quando existe abertura para escuta e transformação, o trabalho que se inicia é bonito. Todos ao redor se beneficiam desse movimento. E, sobretudo, quem domina também ganha outro tipo de potência, a segurança em si, sem necessidade de subjulgar ninguém.


Já para quem vive no lugar de quem é dominado, o início do caminho costuma ser solitário. Autoconhecimento será poder, poder amar a si mesmo. Compreender para que ainda se obedece a comandos que já não vêm do pai nem da mãe, mas de um parceiro ou parceira, é um passo decisivo. Desativar esses comandos internos e permitir que uma maturação emocional aconteça, pouco a pouco, é libertador. O casamento pode terminar. Ou pode se transformar em algo verdadeiramente feliz, porque foi desintoxicado. Em qualquer dos cenários, a vida ganha fluidez e vivacidade.


Por isso, é fundamental que a sociedade e, muitas vezes, a própria família, deixe de criticar por criticar a pessoa que permanece presa em um relacionamento patológico. Durante muito tempo ouvimos que “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”. Hoje, felizmente, existem outras formas de olhar, de intervir, de proteger.


Para quem deseja ver mais desse tema, deixo a indicação de um filme antigo e denso: Encaixotando Helena. Nele, a violência psicológica se torna literal. A amputação acontece no corpo, mas simboliza algo ainda mais violento: a redução progressiva de uma pessoa até restar apenas um toco e um pouco de si, completamente manipulado por alguém que afirma amar. É perturbador. E assustadoramente simbólico.


O que teria sido se? O que muda quando um detalhe muda? Outro pormenor extremamente rico na escrita de Florence é que ela começa e termina exatamente nesse detalhe: o nome. Um nome que poderia ser invenção da irmã; ou uma codificação do desejo da mãe; ou uma necessidade de posse do pai ou da família paterna; ou, quem sabe, o nome do avô materno. O livro provoca essa pergunta sem responder. Porque, ao meu ver, talvez não precise chegar a respostas, mas manter-se em reflexão:


  1. Observe o seu nome. Quem o deu? O que ele significa? Como você o sente e o utiliza?

  2. Observe os nomes que você deu aos seus filhos, incluindo os pets.

  3. Observe o funcionamento da sua família de origem e da família que você construiu.

  4. Olhe com cuidado para as feridas. Não as deposite no colo de alguém. Feridas não cuidadas podem se transformar, sem perceber, em sementes de dominância e relações intoxicadas.


Por fim, se eu tivesse que dar um lugar para esse livro dentro de mim, eu diria que ele me ajudou a me rever como filha, como mãe, como mulher e como psicóloga. Os Nomes me lembra que nome não é destino, que amor não é posse e que, o que sustenta a vida é o modo como nos apropriamos dela.


Aproveito para te convidar a continuar lendo os textos do blog Por Um Fio.

Se quiser, deixe seu comentário. Já leu o livro Os Nomes? Já assistiu Encaixotando Helena? Já viveu relações que pareciam sempre por um fio? Será um prazer te escutar e trocar com você.


Cuide-se bem,

Fe.


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