Carta No 3 - Para a Mulher Rainha da Áustria
- Fe Matos
- 10 de fev.
- 3 min de leitura

Querida Bisa,
Josefina,
Eu não te conheci, mas o teu silêncio chegou até mim.
Te imagino em Petrópolis, numa casa simples e pequena, onde o frio da serra entrava pelos ossos. A casa sempre em ordem, o chão constantemente limpo, o cheiro de café forte pela manhã, roupas estendidas com exagerado cuidado: nada podia parecer descuido; tudo tinha o seu devido lugar. O relógio na sua casa, imagino eu, devia marcar as horas com precisão e autoridade, como se o tempo precisasse ser obedecido para não escapar nenhuma outra vez.
Vejo você caminhando pela casa com passos curtos e firmes. Uma mulher pequena, mas incontornável. A postura ereta não era vaidade, era defesa. O corpo treinado para não ceder. As mãos pequenas, secas e eficientes, sabiam trabalhar, organizar, fiscalizar e corrigir. Mãos que raramente paravam. Parar talvez fosse perigoso demais. mâos que raramente afagavam. Afagos poderiam também ser perigosos.
Você falava alemão. E eu escuto essa língua, com medo, como um som duro e preciso transpondo as paredes, os cômodos. Uma língua que impunha ordem, mas também protegia. Falar alemão, imagino, era manter vivo um pedaço de si num país que não te conhecia. Era lembrar quem você era antes da travessia geográfica, antes da fuga, antes de ter que ser forte o tempo inteiro, para sobreviver e deixar vivos, marido e filho.
Imagino você cruzando o oceano com o biso e o vô, pequenino... uma mala pequena demais para a pequena família e para a imensa história que carregava. Documentos dobrados, poucas roupas, muitas perdas. Penso nas noites de medo e choro contidos, o corpo sempre em alerta, aprendendo que: resistir exige controle; que sentir pode ser um risco; que delicadeza não ultrapassa guerras.
Você tinha pouco dinheiro, mas tinha compostura. Elegância sem luxo. Tudo em você dizia: aqui, ninguém cai.
Nesses meus devaneios (que podem sim contar a tua real história), encontro explicações para você ter sido como foi com sua neta, minha mãe: dura, exigente, brava, distante afetivamente, quase cruel, dizem.
Eu presumo que minha mãe, criança, ficava tentando decifrar seus códigos. Aprendendo cedo que amor vinha na forma de dever cumprido, postura correta, silêncio anulante, obediência cega. Talvez ela tenha crescido acreditando que errar era perigoso demais, porque errar pode machucar, pode fazer perder a vida.
Você não oferecia colo, mesmo que oferecesse estrutura: casa, comida, roupa passada, escola, o alemão, o acordeon.
Hoje, madura, psicóloga, posso compreender que foi o que sobrou para você como forma de amar. Deve ter sido difícil também para você. Acredito que aquilo que você não pode sentir, expressar, temer, tremer, congelou seu coração, endureceu seu olhar, criou regras e isolamentos. O pior minha querida bisa Josefina, que suas dores silenciadas e nada elaboradas atravessam gerações, chegando a mim, talvez ao meu filho também.
Imagino, você à noite, bisa Josefina. Sentada em silêncio, numa cadeira de balanço. Talvez olhando pela janela, sentindo o frio da serra misturado a um frio mais antigo, europeu, ancestral. Talvez lembrando de uma Áustria que já não existia como antes. Talvez guardando memórias que não podiam ser ditas porque não havia quem as sustentasse.
O afeto, quando não encontra espaço, vira rigidez. E a rigidez, quando perpassa gerações, vira medo de falhar, medo de sentir, medo de depender.
Minha mãe e eu herdamos sua força. E talvez também o seu silêncio e o medo.
E eu, na minha autoexigência, fiquei com a tarefa de olhar para isso com outros olhos; de dar palavras ao que foi calado; de oferecer um pouco de ternura onde antes só havia sobrevivência. Mas confesso a você bisa, às vezes, não sei como ser mais afetuosa, menos medrosa ou rígida. Quem sabe, de onde você reside agora, e com a sabedoria adquirida na travessia de outras dimensões (vida e morte) você possa me soprar coragem, e uma pitada de silêncio contemplativo e escutador, diferente do seu silêncio que tudo engole.
Essa carta, mesmo que eu não possa enviá-la, foi escrita como um gesto tardio de amor. Porque eu sei que se eu tivesse lhe conhecido, eu sentiria, por pouquinho que seja, a força concreta da mulher guerreira que ajudou na manutenção de uma família, e que também por isso, permitiu eu existir.
Com todo o meu respeito e uma vontade de sentir saudade...
de inventar lembranças e trocar perdão...
de sentir as raizes na sua casa pequenina e no seu pequinino e áspero colo...
de dizer obrigada bisa e eu te amo, não por suposição, mas por lembrança no corpo e na alma,
Até mais ver.
Te amo bisa Josefina,
da sua bisneta,
Fe.





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